A viagem começa naquele lugar onde projectamos os nossos sonhos. As estrelas guiam os viajantes desde a antiguidade. Porque a astronomia e a fotografia me fascinam, decidi dar-vos a conhecer um astrofotógrafo portuense excepcional, o Nuno Pina Cabral e trazer-vos as impressionantes imagens que capta do Universo com os seus telescópios.

Nuno Pina Cabral é astrofotógrafo amador há 15 anos. A paixão pelo espaço sempre lhe esteve no sangue. Com apenas 10 anos acompanhava diariamente a construção do primeiro Space Shuttle, o Columbia, e ficou extasiado ao ver o lançamento da nave que daria início ao programa de vaivéns espaciais dos EUA. Com 15 anos devorou um livro sobre como construir um telescópio, na que seria a sua primeira aproximação ao conhecimento técnico da astronomia.

Foi nessa altura que fotografou o céu pela primeira vez, com tripé, tomando nota dos tempos de exposição. A paixão pela fotografia também lhe está no sangue e, apesar de nunca o ter conhecido, é o neto orgulhoso de Francisco Tavares, o fotógrafo fundador da Foto Águia de Chaves, em meados do século passado. Desde pequeno, tomou contacto com as técnicas de execução de fotografia e a sua revelação em laboratório. Metódico, evoluía a cada experiência fotográfica.

Com o céu como horizonte, em Lisboa, onde cresceu, frequentava as palestras de Máximo Ferreira e sorvia avidamente as palavras desse outro grande apaixonado e fomentador da astronomia em Portugal. Paralelamente, desenvolvia o seu fascínio pela aviação: fez um curso de paraquedismo, tirou o brevet de aviação civil, aprendeu parapente e, hoje em dia, está a ter aulas de voo à vela.

Quando finalmente pôde comprar o seu primeiro telescópio, um belíssimo Meade LX90 (catadióptrico de 8 polegadas, computorizado), em 2001, vivia numa mansarda em Lisboa com vista para o céu da capital. Foi aí que começou a observar o céu por si próprio, do sistema planetário (Sol, planetas e cometas) ao céu profundo (nebulosas, enxames e galáxias – objectos invisíveis ao olho humano e só revelados através de longas exposições). Aí, e nos campos da Atalaia, com outros astrónomos amadores de Lisboa.

A 27 de Agosto de 2003, o dia em que Marte esteve mais próximo da Terra, ficou fascinado com os resultados obtidos com uma máquina fotográfica acoplada ao telescópio. Na fotografia via-se nitidamente a calota polar marciana. Júpiter, Saturno, nebulosas, cometas, enxames, galáxias, tudo passou pelo olhar atento de Nuno, que desde então tem vindo a aprofundar o seu já vasto conhecimento do universo da astronomia. Recentemente, inventou mesmo um método original e inovador para melhorar as astrofotografias no programa PixInsight.

Há 12 anos, regressou ao Porto, onde nasceu, para concretizar o desejo de uma vida. Aqui encontrou um novo grupo de amigos astrónomos, do Porto e de Gaia, que dinamizam o Observatório Astronómico do Parque Biológico de Gaia com actividades ligadas à astronomia. É um pequeno grupo de pessoas excepcionais que, como Nuno, além da paixão pela astronomia, dão do seu tempo para disseminar o conhecimento da astronomia. Além de abrirem o Observatório do Parque Biológico aos visitantes, dão cursos de Iniciação à Astronomia, que vão até às observações mais complexas.

Uma das melhores formas de ver o trabalho da comunidade de astrónomos amadores e fotógrafos com gosto pela astronomia é o Concurso de Fotografia Astronómica do Observatório do Parque Biológico de Gaia. Nas categorias Terra e Espaço, Sistema Solar, Espaço Profundo e Júnior, todos os anos este concurso tem o importante papel de revelar o que de melhor se faz por cá nesta área.

A belíssima fotografia de Nuno Pina Cabral, Nebulosa de Cabeça de Cavalo e Nebulosa da Chama, ganhou, sem surpresa, o 2º prémio na edição de 2015.

Na edição de 2016, das 7 fotografias de espaço profundo apresentadas a concurso, 5 eram do Nuno Pina Cabral, o que mostra o feito notável de esforço para as conseguir. Muitas pessoas que as vêem, mesmo da área da fotografia, pensam tratar-se de fotografias do telescópio espacial Hubble. Posso dizer-vos que a tecnologia que está na base da sua execução é a mesma que o Hubble utiliza, mas a uma escala e com um custo menores.

Além de todo o equipamento necessário, desde o telescópio e o pesado tripé, às lentes, à câmara concebida expressamente para astrofotografia, com sensor CCD refrigerado a menos 40ºC, é preciso ir para longe da poluição luminosa da cidade. Só assim se conseguem fotografias desta qualidade.

As 5 fotografias expostas na última edição foram captadas no Centro e Norte do país, pela noite fora, com muito frio. A Norte, o lugar de captação foi a aldeia de Branda da Aveleira – podem ver no excelente blogue Actividades (G)Astronómicas, do Grupo de Astronomia do Parque Biológico de Gaia, os relatos do amigo e astrofotógrafo Luís Lopes sobre os dias de astronomia na Branda da Aveleira.

As noites de Verão acabam por ser as melhores para a observação e fotografia astronómica, graças à ausência de nuvens. Junho é uma boa altura para observar o céu nocturno e conviver com este espantoso grupo de astrónomos e até com o Nuno Pina Cabral, porque é quando acontece o Programa Noite de Pirilampos. São noites mágicas em que podemos ver milhares de pirilampos a brilhar ao longo de todo o percurso do parque.

Nessas noites, há vários telescópios pelo parque à espera de olhos curiosos. O Nuno Pina Cabral também lá está, porque vive destes momentos mágicos em que está em contacto com o Universo. Este ano vai voltar a concorrer ao Concurso de Fotografia Astronómica, pelo menos com duas fotografias que já tem prontas. Se o tempo ajudar, porque com nuvens, chuva e lua cheia não se consegue fazer astrofotografia, Nuno vai aproveitar cada oportunidade, mesmo entre dois dias de trabalho e prescindindo do sono, para nos fazer mais imagens maravilhosas do Universo.

Para saber mais:

Nuno Pina Cabral Astrophotography

Concurso de Fotografia Astronómica do Parque Biológico de Gaia (esteja atento às datas de abertura do concurso este ano)